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Uma Cinderela acima de qualquer suspeita

por Mariano Maciel 2 de dezembro de 2017

Por CLÁUDIO MOTTA-PORFIRO *

Se o espírito não me engana e a verdade não me mente, o homem pode ser exigente, mas a mulher é muito mais. A diferença é patente e aparece depressa. Para o homem, o físico é o que interessa. Para a mulher, a alma é o que apraz.
Nem sei se devo. Não confio mesmo. Mas as circunstâncias me obrigam a emprestar algumas das minhas muitas digressões ao cronista inoportuno que assina estas linhas mal acabadas e toscas. É que ele me faz muitas perguntas e, no mais das vezes, tenho ficado confusa diante dos argumentos estilo onça trepada no chão. Tipo conversa pra boi dormir. Na realidade, as intenções dele são bem outras e as libidos já quase avançam os sinais, como se os semáforos já não estivessem tão obnubilados e eu vesga. Avancemos, então. Deixa rolar.

Realmente, a alma feminina é insondável. Mas a do homem é um poço de frases de efeito, pilhérias de mal gosto, saliências, terceiras intenções, enrijecimentos localizados e cantadas poucas vezes inteligentes, dependendo da poesia que pode emanar das frases, o que é difícil.

Minha santa mãezinha a mim disse, um dia, que a mulher nasce chorando, vive amando e morre perdoando. Já o homem nasce sorrindo, vive mentindo e morre fingindo. Eu não estou apaixonada pelo meu quindim moreno, lindo, desocupado e liso desde sempre, mas ela exagerou.

Amiga antiga de faculdade, semana passada, escreveu no meu perfil – e eu concordei – que o que enche o coração da mulher não é o amor, mas a vaidade. Há uma idade em que ela gosta mais de ser namorada do que amada. Estar ao lado de um homem de verdade é o que interessa, de mãos dadas, preferencialmente. Importa mostrá-lo. Convém marcar território e demonstrar poder de fogo, ataque e contra-ataque. Dependendo do candidato e do formigamento das glândulas sublinguais, então, depois de um tempo, ela passa a avaliar ainda mais criteriosamente as poucas virtudes, que diminuem a cada dia, e os muitos defeitos, que aumentam a cada hora. Aí, danou-se.

Para a análise de um homem com alguma pouca virtude a mais, tudo começa pela aparência, sim. Não dá pra negar. É essa a primeira coisa que qualquer mulher vai observar. Se você for bonito, o caminho da conquista se apresenta melhor pavimentado. Mas a beleza, como diria a sua avó, não põe mesa, e não sustenta nenhuma atração. Não adianta ser a formosura em pessoa, se você não corresponder às outras expectativas dela. Mulheres têm feeling aguçado. Coisa de pele. Do mesmo modo, se você for feio – ou se se achar feio – mas compensar com outras características, ainda estará vivo no jogo.

Como acontece em quaisquer circunstâncias, independentemente do gênero, em cinco minutos, no máximo, o sujeito deve abrir a boca e dizer a que veio. Deve mostrar conteúdo no mínimo consistente. Caso assim não seja feito, logo-logo a beleza fluída se esvai pelo esgoto mais próximo. Se, depois desse tempo todo – que é uma eternidade para as mulheres – o camarada permanecer calado, ou é doido, ou é um idiota a mais no meio da multidão deles.

No acima referido quesito da compensação através de outras características, há que se considerar, inclusive, a elegância e a polidez, coisa exclusiva dos homens mais inteligentes. Já vi muito camarada feio tornar-se encantador a partir dos cumprimentos iniciais, quando dele exala um perfume francês incrível e um hálito listerine capaz de derreter vulvas de plástico. Fino trato é outra coisa, muito obviamente. Esses fazem parte da seleta e cobiçada galeria dos mais cultos por excelência do ser. Um luxo.

Tive um marido argentino rico que me deixou por uma novinha. Observe que a mulher pode largar o marido e ir-se na boa. Só que, ao contrário, ela jamais aceitará ser abandonada. Fica deprimida. Precisa do psiquiatra, pois a vontade é esmagar os possuídos do infiel, ou dar um tiro na cara do dito cujo, ou tocar fogo em não sei o quê.

Vivo bem, hoje, mas já estive muito melhor e pertenci à aristocracia não sei de onde. Garanto que, por mais que neguem, o que as mulheres logo percebem é a quantidade de bala na agulha que o cara tem. A situação financeira chama a atenção, apesar de não ser determinante. Se você for apanhar uma moça a bordo de um corolla, por exemplo, vai ter mais chances de impressioná-la do que se for pedalando uma magrela.

É claro que nenhum homem deve envergonhar-se de ser pobre. Todavia, o que ele não deve é permanecer no mesmo estado, sem esforços a mais, por uma vida inteira. As mulheres burras que aceitam relacionar-se com esses trastes – às vezes violentos – que não têm um pau pra dar numa cobra, correm riscos seríssimos. Elas sumiram na estrada ou quase nem existem mais, a não ser aquelas que estão em estado de desespero e apelam para os orgasmos a qualquer custo, ou a peso de ouro.

O argentino era um bon vivant. Colecionava aventuras e chifres, mas me fez um bem danado. Moro em um duplex porque ele me deu de presente. A carreira de gangster era um sucesso e, por isso, hoje vive em Pamplona.

Escrevo e assino embaixo. As mulheres gostam de homens bem sucedidos. Isso é fato. Se você, homem, olha para o seu futuro profissional com olhos de lince, como alguém que quer sempre crescer, verá que ela vai te valorizar ainda mais como pessoa. Alguém pode duvidar, mas muitas mulheres sentem no ar o cheiro da fortuna e, realmente, são essas que auxiliam ou protagonizam o sucesso dos seus homens.

É preciso observar um fator interessante a mais. Conheço mães que armam arapucas perfeitas para que as filhas encontrem o seu pé de meia sem muito esforço, a não ser os cansativos orgasmos às vezes bem fingidos e ensaiados em sons guturais. Muitas destas senhoras perscrutam todos os garotos da rua, do bairro, ou até da cidade. Elas estão a analisar, caso a caso, os meninos estudiosos e focados, uma vez que estes são exatamente os bons filhos que serão ótimos esposos. Todas as famílias, inteligentemente, hão de sempre querer esse tipo de agregado com um certo nível. Todos querem se livrar da realidade nua e crua segundo a qual genro não é parente; é burrada da filha da gente.

Sabe aquele novinho mimado, mandão e rabugento. Pois é. É um martírio tolerá-lo. Nem eu e nem você temos a obrigação de aguentar uma pessoa mal humorada. Ele foi criado por pais que lhe transformaram num enjoado e enojado de merda e metido a besta. Ninguém disse a ele que espalhar sorrisos é uma das melhores características que qualquer homem pode ter.

O sujeito precisa perceber que, agindo antipaticamente, vai espalhar por aí energias eivadas de cargas negativas. A positividade e o otimismo, em medidas terapêuticas, também são um bom canal para impressionar qualquer mulher, ou qualquer humano.

E é esse mesmo tipinho que adora vestir aquele mesmo pijama por seis longos meses a fio. Parafraseando a letra do Chico, todo dia ele faz tudo sempre igual e, às vezes, sequer escova os dentes, porque acha que ela já se acostumou a esse padrão rotineiro e não está achando ruim, quando, na verdade, ela está querendo aplicar-lhe um bom pé na bunda.

Esses tais devem pensar sempre nas possibilidades de sair da rotina. Homens criativos têm mais chance de conquistar mulheres mais divertidas pelo fato de conseguirem sair do feijão com arroz com mais desprendimento. Acredite de uma vez por todas que mulher nenhuma gosta das mesmas coisas todo santo dia.
É preciso dizer que eu te amo, porque a cada dia sonhamos, projetamos e executamos de forma ou em posições diferentes. Mulheres inteligentes – que são quase todas – gostam demasiadamente disso.

Ficam as dicas. Depois virão outras. Com um beijo desta eternamente sua, Delícia.

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*Escritor. Autor do romance O INVERNO DOS ANJOS DO SOL POENTE, disponível nas livrarias Nobel, Paim e Dom Oscar Romero, ou pelo e-mail claudioxapuri@hotmail.com>

 

 

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